Pular para o conteúdo principal

Fluidos transcendentais..


Ele me chama de marmota. De magrela. De gordinha. De bicuda. De baranga. Ele chama meu all star de kichute, minha alergia de pereba e minha calça xadrez de roupa de quadrilha. Ele me olha com carinho mesmo quando eu estou insuportavelmente chata de Tpm distribuindo indelicadezas por aí. E me dá bala ou sorvete. Ele arruma meu computador. Meu aumento. Meu humor. Ele me trata como se eu fosse um homenzinho. E me leva pro almoço só dos meninos. Ele divide a sala comigo. E faz piada de tudo que eu falo, faço e visto. Ele é criminalista, mas sempre tem boas teses civilistas. Ele me chama pra ir com ele até o Fórum de Nova Lima, só pela minha companhia. Ele me ensina tudo sobre os homens. Ele me acha linda, mas fala que eu sou “até bonitinha”. Ele é o Dj e anima as festas na minha casa, distribuindo pinga por ali. Ele diz que o Thor é mal educado e o Lilico vira-lata. Ele me espera para almoçar. E paga meus almoços. Ele me conhece como ninguém. E sabe meus segredos. Ele toma conta de mim. Ele tenta fugir dos meus beijos. E faz cara de nojo quando eu dou. Ele herdou o nome, as manias e a gentileza do pai. Ele tem pose de durão, mas tem o melhor coração. Ele tem ciúmes de mim. Ele é impulsivo e ansioso. Ele é sistemático. Ele me liga de madrugada. Ele me faz rir. Ele conserta tudo que há de ruim em mim. Ele tem uma intimidade irritante e exagerada comigo. Ele não ouve meus conselhos. Ele é meu irmão. Ele tem o melhor humor. Ele é conselheiro do Atlético. Ele teve o projeto de mestrado aprovado na Sorbonne.

Ele foi embora hoje.

Último almoço de despedida e ele se foi. Voltamos para o escritório. Um silêncio esquisito de todo mundo. A mesma sensação estranha. O mesmo nó na garganta. Eu, egoísta. Exatamente como eu fui da outra vez. Com direito a birra, manha, dengo, choro. Nesse momento com o olho mareado e o narizinho vermelho, segurando pra não descer lágrima.

Eu, mais uma vez, não vou ao aeroporto. Me dei o direito. Vou entrar para uma reunião e trabalhar.

Não é criancice, infantilidade ou exagero. ........ Tá bom, pode até ser.
Mas mesmo assim não abro mão. Não abro mão de passar meus dias ao lado dele, alguém que me causa tantas sensações boas na vida.Ele não sabe, mas desde que ele voltou não tirei a foto dele na minha carteira. Foi uma forma de garantir que este plano dele daria certo. De torcer caladinha para que saísse tudo como planejado.

Na última sexta a gente passou umas horinhas conversando, sobre a vida, na sala do pai, com um clima bom de sextas-feiras, com a vista bonita que tem ali. No ar, um aperto no peito de sentir que a despedida se aproximava, dizendo que ele não estaria mais ali na minha rotina, naquela sala, como tantas vezes estivemos.

Mesmo tendo torcido tanto pra isso dar certo, hoje fica um vazio. Mesmo falando pra ele todos os dias que eu não iria sentir saudade, eu vou. Só é vazio o que já esteve cheio. Só vou sentir falta, porque a presença foi indescritível.

Boa sorte, Cast. Vai com Deus, se cuida. Prometo cuidar da sua irmã, do seu pai. Prometo não fazer nada de errado. Prometo manter as coisas em ordem. Vai fazer mais falta do que imagina. Não me esquece e te espero na volta com aquela festa (surpresa) que ainda não saiu. A trilha sonora é pra você e você sabe bem porque.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Para beijar na chuva.

Pela ordem natural este post deveria ser aquele sobre minha viagem, sobre minha partida, sobre minha chegada.  Mas não tenho sido muito adepta da ordem natural ou estaria em uma outra vida, sonhando com um bando de coisas que eu nem acredito que existem. Por isso o fim de ano chegou primeiro e com ele meu post da virada, que tem se tornado uma tradição para mim. Algo como o Especial de Natal do Roberto Carlos ou o Show da Virada do Faustão. Post de final de ano, então, tem todo fim de ano. A única condição aqui é que as sensações sejam novas e desde já fica meu pedido para que o universo renove meus desejos e que eles sejam mesmo diferentes a cada ano, e sejam alimentados por expectativas diferentes, sensações diferentes e sonhos diferentes. E que haja, por isso, inspiração para que eu escreva a cada virada de ano e muitas vezes entre uma virada e outra, porque se isso não significa muito para as pessoas, para mim, significa sempre que eu estou viva. E só por este motivo e...

Carta aberta a Fábio Jr.

« Enquanto não  atravessarmos  a dor da  nossa  própria solidão,  continuaremos  a nos buscar  em outras metades. Para viver a dois, antes,  é necessário ser um. » - Fernando Pessoa. Fábio, você tem ideia do que você fez? Você tem ideia de quantas milhares de pessoas estão infelizes por sua causa? Está bem, eu sei que é um peso muito grande para você carregar, mas você devia ter pensado nisso antes. Eu gostava tanto de você, sabia? Sei lá se você é afinado o bastante, mas como a única coisa que eu entendo de música é que eu gosto quando me faz sentir viva, você serviu. Passei minha infância inteira te ouvindo por milhares de quilômetros no banco de trás do carro e em tardes passadas no quintal. Passei minha adolescência inteira te ouvindo cantando lá na sala durante os jantares que meus pais faziam para os amigos. Passei minha vida adulta inteira acordando com você me perturbando domingos de manhã (muit...

Um pouquinho, só mais um pouquinho.

A história nem é recente. Já acontece no mundo desde os primórdios da humanidade. É mais ou menos o tal do disse-me-disse. Faz um tempinho e uma mocinha que eu não conheço, com quem não tenho amigos em comum e com quem nunca troquei uma única palavra resolveu sem ser consultada dar a alguém muito próximo de mim seu depoimento a meu respeito. É, esta estranha desconhecida de nome esquisito, quis dar uma opinião pessoal ao meu respeito para uma pessoa com quem convivo há cerca de oito anos, quase um terço da minha inteira existência. Sem ser perguntada, ela quis opinar e opinou. Um depoimento pessoal e de natureza, a meu ver, negativa. E por razões muito óbvias é claro que alguém que eu não conheço, que nunca olhou nos meus olhos, com quem nunca troquei nenhuma palavra, não merecia um post no meu blog, mas cá entre nós, aqui também tem espaço para as porcarias da humanidade e eu não posso querer viver sempre no mundo que eu inventei, sob pena de meu mundo inventado ser de ...