Pular para o conteúdo principal

Para os que vão tarde.


Minhas últimas viagens antes de voltar ao Brasil me trouxeram, dentre tantos prazeres, o de conhecer pessoas incríveis. Estas pessoas não vão ser meus melhores amigos, nem futuros namorados, também não vão estar na minha vida para sempre, mas de algum modo vão fazer sempre parte dela de alguma maneira. E essas pessoas serão certamente lembradas em dias quaisquer em momentos significativos. 

Em umas das ilhas da Grécia para onde eu fui sozinha, no barquinho de doze pessoas que nos levava ao lugar mais lindo que eu já conheci na vida, tinha uma brasileirinha. Carol. Carol como a maioria das Carol´s que me cercam era doce. Tinha a fala mansa. Não alterava o tom da voz para falar. E me achou com o olhar, ao se aproximar dizendo: você é a outra brasileira do grupo? Sim, eu era. 

As pessoas que a gente conhece quando está sozinho, viajando por algum lugar que fique a mais que dois meios de transporte de casa, vêm com um selo. É o selo de zona segura. Eu e Carol não precisamos de intimidade ou confiança adquirida através de alguns anos de amizade para estar assentadas na beira daquela praia deserta falando sobre lugares quase inacessíveis das nossas alminhas, sobre um íntimo perigoso até para nós mesmas.

Carol era uma mulher linda. Com seus 38 anos, um sorriso lindo e um olhar cheio de histórias, ela teve que ir até o Japão para viver um amor brasileiro e foi por lá que ela viveu também a experiência que acabou de um jeito não tão raro assim. Eu tinha vivido algum coisa parecida umas semanas antes. E até aquele dia eu não tinha tocado neste assunto com quase ninguém e ela também não. E de repente ali, a gente acessou diante daquelas águas verdes transparentes lugares muito desconfortáveis de nossas histórias e vidas.

Em comum, ainda não cicatrizados, tínhamos vivido duas histórias com um final muito parecido. Aqueles casos em que a história se encerra ali em um diálogo onde um dos lados transborda sensações, impressões e emoções e outro oferece aqueles gritos ensurdecedores e não explicativos do silêncio. Hoje pela manhã me lembrei da Carol. Fiquei lembrando de quanto seus olhos me diziam enquanto ela me contava aquela história sem parar de sorrir. Mesmo sem vontade, talvez. 

Hoje quando olhei no espelho enxerguei o mesmo olhar e o mesmo sorriso. Aí lembrei da minha história. Das minhas. Da dela. Da de dezenas de amigas e amigos que tiveram que lidar com alguém que entendeu que de fato a melhor resposta a alguma pendência afetiva era simplesmente silenciar. Sumir. 

Sempre me perguntei porque é que as pessoas somem. Quer dizer? A gente sabe, no fundo a gente sabe. Todo mundo já saiu nas pontas dos pés, sem fazer barulho, como quem não quer ser visto. Como crianças quando fazem algo errado e saem devargarzinho para escapar ao xingo dos pais. Mas não estamos falando mais de crianças ou pelo menos não deveríamos estar. As pessoas somem porque é confortável, porque sumir é não ter que encarar o outro nos olhos. É não ter que dizer o desconfortável “não te quero mais”. Ou é não ter que dizer: “eu te amo, mas...” ou “não deu para aguentar seus ciúmes, suas inseguranças, suas manias”. Ou “estou voltando para o meu ex”. Ou “a distância está grande demais”. Ou “o tesão – ou o amor – acabou”. Sumir é não ter que discutir a relação. Sumir é não ter que assumir que você não sabe como dizer que está indo embora. Sumir é se poupar. 

Mas sumir é não poupar o outro. Sumir também é covarde. É egoísta. Sumir é dizer muito mais do que se pode imaginar. Sumir é se tirar a chance de dizer a si próprio diante do espelho que está indo e tem que assumir as responsabilidades pelo que perde ao ir. Sumir é visualizar e não responder. Sumir é democrático e serve para todo tipo de gente, mas só some quem não está bem na própria pele, quem está desconfortável consigo mesmo a ponto de não se atribuir a tarefa de dizer o que sente. E quem vai, pode não perceber, ou não saber, mas sumir é uma recusa para si mesmo, muito mais do que para o outro.

Mas para mim, com toda incômoda transparência de quem vive com as janelas escancaradas, isso não responde a pergunta. Porque que é, sen-or, que as pessoas somem? Há sempre duas pessoas em uma relação.  Não importa quão des-afinadas elas possam estar. Ninguém fica ali sozinho, ninguém faz nada sozinho. Ninguém entrou ali sozinho e ninguém deveria ter a ousadia de sair sozinho também. Diante de uma pergunta, as pessoas esperam uma resposta. Nem que seja um não, verbalizado, honesto e explicado, que acaba em certos casos por nunca vir. 

O que ainda resta, entretanto, como verdade, é que as pessoas só fazem com a gente o que nós permitimos. A gente deve a si mesmo não aceitar um amor, um relacionamento afetivo ou sexual com alguém que tenha menos para dar do que a gente merece. E todo mundo merece não incluir nos planos gente que some, que vira pó ou fumaça. 

A gente merece, sim, é esvaziar a lixeira, se considerar livrado, muito mais do que abandonado. A gente merece não despejar em que some expectativas ou afetos que, - se existiram de verdade um dia -, provavelmente passaram a existir somente nas nossas cabeças. A gente merece não inventar desculpas mirabolantes para quem não se deu o trabalho nem de inventar uma esfarrapada. A gente merece não inventar mentiras para uma única verdade simples, nua e crua: fica ali quem quer. 


A gente merece não se perguntar porque que é as pessoas somem. Mesmo sabendo que a resposta não é tão difícil assim de encontrar. Elas somem porque dá na telha delas. E tudo que quem fica acaba devendo é o provável já vai tarde.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Estrela no teto.

O quarto do meu irmão virou o quarto de computador. Foi melhor assim. Mudar as coisas de lugar diminui a estranheza de não tê-lo mais aqui. O armário, aos poucos, foi esvaziado e dele, guarda apenas uma ou outra camiseta preferida. A cama mudou de lugar. O computador veio para cá. Um mural de fotos, uns livros, outra cor na parede. Pronto. Algumas mudanças. Necessárias. Algo aqui, algo ali foi mantido igual. Melhor assim também. A mudança desconstrói umas sensações que não são boas para se viver todo dia. E os detalhes preservados mantêm aquelas sensações sem as quais não seríamos capazes de viver. Cada qual com sua função: a mudança e os detalhes. Hoje estava aqui, esperando baixar um arquivo e dei uma espreguiçadinha, estiquei, balancei os cabelos e olhei pra cima. Tudo automático, coisa que se faz todo dia. No teto deste quarto em que já estive por tantos anos, vi, pequenininha, esquecidinha, já pintada da cor nova do teto, uma estrelinha. Sim, uma estrelinha. Lembra daqueles adesi...

Eu não sei tirar as pessoas da minha vida..

Eu não sei tirar as pessoas da minha vida, não mesmo. Nunca soube. E tenho pena de quem sabe. Não importa a categoria. Amigas, amigos, namorados, colegas de trabalho, qualquer coisa. É que eu não entendo esta história de ‘em um dia a gente é feliz, se diverte juntos, troca uns segredos, divide a mesa do bar, a conta e a intimidade’ e no outro... ‘no outro não..no outro aquela pessoa até então querida se torna um ‘ex’ qualquer coisa’. De repente ‘fulano ERA meu amigo’, ‘eu ERA apaixonada por ciclano’ e ‘já FUI melhor amiga daquela outra’. Socorro. Não sei dizer se é defeito ou qualidade. Sei dizer que o que eu puder fazer para manter as pessoas na minha vida eu faço. Não sou nenhuma boba ambulante que faz questão de quem não faça questão de mim. Não é isso não. Sou movida a calor, a amor, a carinho. Celebre por me ter na sua vida e eu celebrarei por te ter na minha. Outro dia disse isso a um amigo: Eu não preciso das pessoas e nem quero que elas precisem de mim. Eu preciso é de que elas...

Dias bons de ser feliz.

Seria mais uma sábado qualquer. Mas amanheceu um dia desses que fazem gosto levantar da cama. Abrir todas as janelas da casa. Ficar olhando pro céu e deixar o vento passar. Sem pensar em muita coisa. Dia bom de ser feliz. Calor. Passei o dia estudando, de frente para o computador. Mas a vista da janela lateral me lembrou a cada segundo de sentir aquela sensação boa de dias lindos. Vontade de colocar um vestido curto. Esvoaçante. E sair por aí distribuindo uns sorrisos gratuitos. Sozinha em casa. Hora de dar a comida dos meus bebês. Dei, troquei água. Liguei a mangueira para molhar o jardim de papai. Molhei. O dia lindo ao meu redor. Thor e Lilico brincando por ali. Um andando atrás de mim e me observando com um olharzinho de quem me ama; o outro com meu chinelo tentando me fazer brincar de pega-pega que ele adora. Eu, de short jeans, camiseta e chinelo (só em um pé, o outro na boca do Thor) e a água gelada caindo nos meus pés. Sem raciocinar muito o que estava fazendo me molhei também...