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Uma mamadeira de leite quentinho, talvez?

Olá! Já nos conhecemos há uns dias, mas é a primeira vez que falo diretamente com você, assim, em voz alta. O médico preferiu nos deixar uns minutos a sós. Muitas vezes na minha vida pensei em como seria este momento e agora não sei o que fazer. Devo ter mentalmente ensaiado algo para dizer, mas saiu tudo tão diferente do que eu imaginava, então vou ter que improvisar. Me viro bem no improviso, mas fico vermelha. Trinta segundos de conversa e acabo entregando algo sobre mim. Sim, fico sempre vermelha nestas situações. Sim, entrego facilmente coisas sobre mim. Tenho tanto a dizer, há tantas coisas que você precisa saber. Eu vou tentar te poupar, mas você vai ter que ser forte, pequeno. Promete ser? Eu prometo tentar. Prometo, prometo. Sempre tive certeza que a primeira seria uma garotinha e ainda não dá para saber se você não é, mas existindo o que chamam de instinto estou falando mesmo com um garotinho. Meu garotinho. Um menino. Não era para ter acontecido deste jeito,...

Para mim não é.

É simples. Se eu reclamar de tristeza me olhe. Me olhe, pegue meu cabelo, me dê as mãos. Não sou lá de reclamar destas coisas. Na verdade não sou muito destas coisas de tristeza mesmo. Gastei quase tudo uns anos atrás. Mas estou viva, sempre sobra alguma coisa. Então se eu nunca reclamar de tristeza me cuide também. Não sou muito destas coisas, mas aqui há um pouco de tudo. Me doo inteira. É doo, assim mesmo. Estou falando de dores, não entregas. Não vivo na superfície de nada. E no fundo, - onde mora o que não se revela, o que é obscuro, - é lá que as experiências, acontecimentos e escolhas mais doem. Lá tem de tudo, na verdade; já disse. É só observar os sinais, que se não forem um blefe são assim ó: Quanto mais paixão, mais silêncio. Mais silêncio, mais paz. Mais paz, mais dor. Mais dor, mais sorriso. Mais sorriso, mais palavras. Mais palavras e começa tudo outra vez e acabo voltando ao mesmo lugar. E é bom caminhar por aí quando se tem para onde voltar. Só faço o que eu quero e...

Desculpas antes que o ano vire.

Fim do ano e sempre me despeço por estes dias. Natal, virada de ano. Natural que as pessoas agradeçam e renovem os pedidos para os próximos 365 dias que neste momento se parecem centenas de oportunidades de fazer tudo diferente. Neste ano não vou seguir o protocolo, não vou renovar os pedidos um a um porque 2012 me mostrou que nossos planos, nossas intenções não tem muita vontade própria. O destino se desenha como quer e nossa luta é para se desviar aqui e ali do que não parece o ideal. Também não vou agradecer, ainda que eu tivesse motivos para isso, porque gratidão é atitude, é referência, é coerência e não um amontoado de palavras soltas e sem sentido. Para fugir do clichê hoje eu vou fazer diferente e vou me desculpar enquanto é tempo e antes do ano virar, vou me desculpar comigo e com vocês. Peço sinceras desculpas por desrespeitar meu destino, por ter desacatado o que eu senti por mais de uma vez, por ter encerrado tanto vida, por ter alterado o curso da minha história,...

"De maior".

Isso sempre acontece comigo. E deve ter alguma razão. Saindo do Tribunal de Justiça assentei em uma daquelas casinhas de ônibus para organizar minhas coisas e esperar um táxi. Estava lá não tinha dois minutos e vem uma princesinha de rua, rostinho de boneca, descalça, um vestido caindo largo sobre os ossinhos dela, tentando vender adesivos. A reação é meio padrão e a minha também foi. – Compra um tia? – Não tenho, princesa. E ela se assentou ali do meu lado para esperar. As duas pessoas que estavam por ali deram uma afastada que me encheram de raiva e um certo nojo.Meu telefone tocou em cima da minha pasta, a pequena olhou para minha foto na imagem de fundo, depois para mim e perguntou: - É você? Eu olhei para ela e concordei, ouvindo, então, daquela boquinha desenhada, que eu estava muito bonita na foto. E ela disse isso enquanto colocava a mão no meu joelho. Olhei melhor para aquela coisinha magrela do meu lado, com os olhinhos de jabuticaba na minha direção e pensei em...

Do que aprendi com eles.

Dia dos professores. E minha homenagem para eles vai através das duas pessoas mais importantes na minha vida. Meus pais são envolvidos com educação desde seus primeiros anos de trabalho. Não trabalham mais dentro da sala de aula, mas construíram tudo que tem investindo nisso com muito amor, ensinando aquilo que aprenderam nas especializações e na vida. Independente do belo trabalho que os vejo realizar, sinto que aquilo que de mais importante ficou na história foi o que me ensinaram e que por outras vias também alcançou a centenas de pessoas. É aquilo que ultrapassa a grade curricular e permitiu que eu fosse hoje Dra. Luísa, Xú, Lú, Luli, Magrela, Morena, Pequena, Xulispa, Da minha janela. Professores são almas livres, pessoas que não envelhecem, que não param no tempo, que estão dispostos a doar o que sabem, a dividir o melhor de si mesmos, a passar a vida tentando ensinar a própria vida para jovens para quem o céu é o limite.   Comigo também foi assim. Cresci dentro da minh...

Só mais uma de amor II.

Ele saiu, deixou a porta bater nas suas costas e ficou ali parado, ouvindo só sua própria respiração e talvez o som que ele achou ser do soluço baixinho dela por trás da porta. O fez não sem antes ter ouvido da boca salgada de lágrimas dela que ele era um idiota ou corrompido, não sei mais ao certo. Não sem antes também ter dito que ela levava uma vida louca, sem rumo. Tudo aos quase gritos. Entre lágrimas. Verdades parecidas com mentiras. Mentiras parecidas com verdades. Acusações. Ofensas. Carapuça que serviu como luvas para os dois. Mesmo que nenhum deles fosse tão ruim assim como o outro naquela hora queria tanto acreditar. Eles tiveram um caso por duas semanas; romance relâmpago, mais relâmpago do que romance. Ele era comprometido há muitos anos. Ela uma solteira convicta, também há muitos anos. Ele tinha uma relação que alcançava quase uma década. Ela só tinha relações superficiais desde que o ex-noivo lhe trocou por uma grande amiga; isso já uns três anos antes. ...

No lugar mais alto do pódio.

No fundo, todo casal sabe que pode acontecer, mas vive como se não fosse nunca. Lá atrás com as primeiras conversas, vieram as primeiras promessas. Os primeiros encontros, as primeiras horas e horas de conhecimento diziam, - meio que anunciavam -, que duas almas às vezes saem de seus próprios corpos para se encontrar. E como era bom sentir que era um encontro, sentir que estava nascendo, acontecendo. Que o pedido estava se realizando.Que eles estavam realmente dispostos a se permitir, como na velha música. E se permitiram. Tudo aquilo que já haviam visto e vivido até ali serviu de norte para o novo casal que nasceu no corredor de uma repartição pública, com o primeiro beijo roubado e desajeitado dentro do carro, com o pedido de namoro no chão da casa da melhor amiga no fim de uma festa. Na verdade o que haviam visto e vivido serviu mais de sul do que de norte. Porque eles só quiseram e se prometeram caminhar no sentido contrário de tudo aquilo com o que não concordavam em outr...